2016/04/14

do que calor que só há lá.

I
há um calor no meu país que é diferente de todos os outros. 
um calor que entra por debaixo da pele e fica lá para sempre, formos onde formos, estivermos onde estivermos. que traz a memória de todos os verões de chinelos, água fresca do mar, almoços no quintal e sestas à sombra. um calor alentejano, rodeado a risca azul, dentro de um comboio da CP a caminho do norte. com sabor à-groselha-que-a-mãe-fazia-nas-férias. com cheiro à espiga acabada de apanhar e banhos no rio alva. fim da primavera, início do outono.
um calor que se sente de cada vez que o coração entra pela cabeça adentro e decide desarrumar gavetas. 

II
tenho medo. muito medo de ficar triste para sempre. [começo até a ter vergonha de falar sobre isto aos outros.] acabei de chegar, mal passaram 3 meses. mas há um calor no meu país que é diferente de todos os outros. que não tem que ver com temperaturas ou estações do ano. 
é a minha identidade a falar sozinha. saio cá de dentro e vejo-a agir sem pedir licença. tomar conta de mim, dos meus movimentos e condicionar tudo o que faço. 
juro. juro que quero habituar-me, sentir-me em casa, criar raízes. contrariar isto tudo. 
tenho ainda mais medo se pensar no afunilamento de possibilidades de ir até ao gerês, conhecer aveiro finalmente ou descer de impulso a costa vicentina até aljezur. - já se sabe que visita de emigrante é um contra-relógio.
'é normal, são os primeiros tempos', dizem-me. 
mas há um calor no meu país que é diferente de todos os outros e eu preciso de descer a avenida no 25 de abril. encontrar toda a gente na ginja e terminar o dia numa esplanada com travessas de caracóis e imperiais. 
preciso de ver a avó muitas vezes enquanto ela ainda for viva. de ir às festas de aniversário dos filhos dos outros. dos abraços dos meus amigos, dos jantares em casa dos meus pais. 

III
'e se ainda lá estivesses, como estarias?' 
mal. pior que no ano passado, bem pior que há 5 anos atrás. sem dinheiro e a tentar ignorar as cartas mensais [às vezes semanais] das finanças. a dar voltas à cabeça a tentar perceber como vamos pagar o arranjo no carro, a renda em agosto e a pensão de alimentos dela. ele com dores de estômago e os níveis de tensão arterial sempre nos himalaias. telefonemas de trabalho ao domingo e o desrespeito total pelas tuas capacidades, pelo bom que fazes, pelo tanto que vales. 
em pouco tempo ele encontrou um trabalho de sonho. finalmente sente que o valorizam. e merece tanto sentir-se assim. 
daqui 2 semanas mudamos para uma casa de bonecas num bairro campestre de contos de fadas. em frente à janela, verde das árvores e o canto de passarinhos como música ambiente. esta cidade é tão-bonita-também e isso ajuda muito. [repito-me. como mantra para me ajudar]
e não é que os holandeses não são assim tão péssimos? são honestos. sabes sempre com o que podes contar, bom e mau. é um descanso. sim, têm a mania que são um povo iluminado, superior a todos os outros, coitados. mas quando vêem potencial, não se sentem diminuídos. dão-te a mão e ajudam-te a seres ainda melhor. sabem que a união faz a força. [ou se calhar temos tido sorte. mas eu só posso falar do que conheço, não é?] respeitam a tua vida pessoal e sabem que essa é bem mais importante que a profissional. e o teu patrão não se sente ofendido porque tens de ir ao funeral do teu avô. pagam-te a horas. já não tens de andar a pedir todos os meses o que é teu por direito.

IV
escrever como ansiolítico, como depósito do que se sente. libertar o aperto no peito e chegar ao fim mais leve do que no começo. 
saber que, apesar desse calor que é diferente de todos os outros, esta equipa está a ganhar desde o início porque o melhor do mundo é chegar a casa e tê-lo à minha espera, seja lá onde isso for. 
e que daqui a pouco tempo 3 horas e alguns euros de distância não serão impedimento. e, finalmente apreciando as vantagens desta escolha, poderemos ir de vez em quando aos caracóis e às imperiais com todos eles. 
afinal de contas, há no meu país um calor que é diferente de todos os outros.