a decisão.
2015/12/29

a decisão.

começa aqui uma série de crónicas, textos, relatos, reflexões, ou-o-que-se-lhe-quiser-chamar sobre a grande mudança de vida que está prestes a acontecer.
aqui, vão-se contar episódios, relectir sobre acontecimentos, relatar experiências e sensações, procurar diminuir saudades e encurtar distâncias, manter uma porta entreaberta para todos os que nos quiserem ir acompanhando, todos os que já se sentiram na mesma posição que nós e ainda não encontraram as forças para fazer o mesmo e sobretudo para nós que, de coração mais apertado do que o próprio apertado, partimos à procura de uma vida melhor, mais justa, mais leve. 
aqui falarei sobretudo na primeira pessoa. 

começemos pelo início. 
lisboeta até ao tutano, sou daquelas pessoas que passeia pela cidade só porque sim. em dias de outono, de nevoeiro, de primavera e de sol a queimar. quem me conhece sabe que gosto de azulejos, do tejo-prata, do embalo dos elétricos nos carris, de alfama, da estrela, de alvalade e do chiado. 
vivi até ontem na casa mais bonita da cidade - que felizes ali fomos! 
tenho 31 anos e tenho vivido nos últimos anos a fazer um trabalho que muito me enche as medidas [ensinar crianças] mas que pouco me respeita: de recibo em recibo, sem direito a pagamento nas férias, feriados ou dias de doença e demasiados encargos fiscais que em nada me protegem. a vida tem-se vivido de mês em mês [às vezes de semana em semana] sem nunca termos grandes certezas de como vai ser daí a poucas horas. mais uma multa nas finanças, a luz que depois de vários avisos foi mesmo cortada, a pensão de alimentos que já está em atraso, a consulta que adias e os exames que não fazes, a sensação constante da corda na garganta e umas lentes grossas, baças e escuras no futuro que não consegues adivinhar. as lágrimas e os dias de aperto transformados em noites em branco, ansiedade e o corpo dormente. 
[mas eu não quero deixar o tejo. a calçada. a luz desta cidade ruidosa com cheiro a maresia. os meus pais, a minha avó já tão pequenina, todos os meus amigos. não quero estar longe das graduações de karaté e dos trabalhos de casa da B. 
quero continuar a descer a avenida no 25 de abril e sentir a areia da praia a escaldar-me os dedos dos pés.]
apesar de tudo, faço questão de não ser miserável: continuo a ir jantar fora de vez em quando e a viajar sempre que possível. não preciso de hotéis de 5 estrelas, basta-me um comboio e um saco-cama. e sim, tenho um iphone - porque ter um gadget de que se gosta não muda o paradigma anual de uma família. 
mas maior que este reboliço todo, vivo na sensação constante de me sentir tão-mais do que até agora fui.
tenho a certeza de que somos maiores ainda e de que precisamos de um lugar que nos trate com justiça, nos deixe conjugar os verbos crescer, projectar, conquistar, sonhar.
assim, anos e meses de muita reflexão, de muitas perguntas e respostas e uma quantia considerável de lágrimas depois, aí vamos nós à consquista de outro país. de uma língua diferente e difícil, de alguns graus abaixo do que estamos habituados.
confesso o meu amor por amesterdão. a vida em cima de duas rodas, a arquitectura, a organização, o modo de estar - é romance antigo e estive quase-quase para me mudar há uns anos atrás. mas a vida meteu-se pelo meio e ainda não era a altura certa.
desta vez temo-nos um ao outro e a certeza de que, desde que juntos, havemos de conquistar o mundo e de ultrapassar o que por aí vier. chamem-lhe conversa de livro de auto-ajuda, clichés da oprah ou o que vos apetecer mas o essencial é o que trazemos cá dentro e vos garanto que é isso mesmo que eu sinto. 
assim, depois de uma ida-de-avaliação decisiva à nossa futura cidade em outubro em que, entre outras coisas, arranjámos casa, começámos a tomar as devidas previdências: avisar a senhoria da nossa casa, informar no trabalho, falar com a família e amigos.
porque precisávamos de dinheiro para os primeiros tempos de incerteza e não poderíamos connosco levar todo o recheio da nossa casa, fizemos uma venda de garagem e esvaziámos um apartamento numa semana. com a enorme ajuda do E. e dos meus pais, ontem dissemos adeus ao bairro da lapa e mudámo-nos para casa dos meus pais, até irmos embora, daqui a poucas semanas. 

sabe bem recomeçar. 
sabe bem esta sensação de respirar ar novo, ar de esperança.
já não temos sofá, nem electrodomésticos, nem livros, nem quadros, nem pratos, talheres e caixas. mas temo-nos um ao outro e o apoio de todos os que nos querem, que nos têm ajudado a reforçar a certeza de estarmos no caminho certo.
temos tudo o que precisamos.