1 mês e uns dias.
2016/03/01

1 mês e uns dias.

deve ser a quarta vez que me sento à procura das palavras certas.

ainda não é hoje. tento mais tarde.
não. também não consigo agora.
amanhã. 
na próxima semana.

raramente isto me acontece, o adiar um texto, adiar uma reflexão que deambula na cabeça atrapalhada, sem saber como se arrumar. 
passou 1 mês e 13 dias desde que aqui aterrei. e foram semanas tão cheias, tão grandes, que é difícil compilar tudo o que se tem cá dentro. 
não esperava que as saudades fossem uma coisa tão física e em certos momentos tão avassaladora que prende os movimentos.
já sabia que me iam fazer falta todos os meus, já sabia que estar longe seria difícil mas, sentir saudades do caminho para o trabalho? do metro? das marquises de benfica? 
é oficial, sou emigrante. mais ainda, sou emigrante portuguesa até ao tutano. 
ouço a antena 3 no trabalho. o meu coração estremece com o antónio zambujo, a márcia e o sérgio godinho. tenho sonhos frequentes com broa de milho e bacalhau com grão. já chorei com uma imagem do chiado e outra do jardim da estrela. pesquiso uma média de 3 vezes por semana voos baratos até lisboa. 
e sim, é verdade que o sol do meu país é mais quente e luminoso que em qualquer outro lugar no mundo. 
há dias exigentes, dias em que sinto que estou, literalmente, capaz de me desfazer em lágrimas ao mínimo toque. 
afinal, estava enganada: sempre achei que era miúda para viver lá-fora, que isso das saudades era coisa de meninos e supreendo-me todos os dias com as dificuldades que encontro em mim para fazer isto.
custa. muito. 

mas também há dos outros dias. dos que viemos à procura. dias em que me começo a sentir em casa porque já tenho um atalho para o trabalho, porque já me conhecem no supermercado, porque as rotinas se começam a instalar e sobretudo, sobretudo porque os resultados que procurávamos começam a surgir. porque as pessoas com quem nos temos cruzado nos têm acolhido tão bem. e nesses dias, de mercado ao sábado de manhã e passeio de bicicleta ao sol, enchemos os corações de uma certeza maior de que estamos no caminho certo.
aqui sinto, finalmente, que posso respirar com os pulmões mais abertos. que posso sonhar e fazer planos. que ser independente profissional e financeiramente pode ser uma realidade. e que aquilo que fazemos tem valor. 
afinal, não estou assim tão longe. são 3 horas de caminho. 

[2 dias antes de vir, ofereceram-nos uma festa bonita e um caderninho com mensagens e dedicatórias. só hoje, 1 mês e 15 dias depois o consegui ler até ao fim. obrigada a todos, todos, todinhos vocês.]

com tudo isto não tenho pegado em lãs e não terminei projecto nenhum. mas sinto que já não deve faltar muito. 
estou pertinho de me sentir em casa.