vamos falar de coisas sérias?

vamos falar de coisas sérias?

hoje vou escrever na primeira pessoa, sair da ‘personagem’ Julieta e falar dum assunto sério na sequência da difícil semana passada por estes lados.
e porquê?
porque quanto mais procuro informação sobre isto e quanto mais me apercebo de que não estou sozinha no mundo, mais concluo também que as pessoas que batalham com o mesmo problema que eu não falam sobre isso: não falamos sobre isso.

estou a falar de ansiedade.

infelizmente, existe ainda um enorme estigma em redor das doenças mentais e dos desequilíbrios emocionais e mesmo entre alguns dos nossos amigos e pessoas da nossa família, falar sobre isso é ainda ver o mundo a duas cores: as pessoas normais de um lado, os malucos do outro. consequentemente, se acaso sentirmos que poderá estar alguma coisa menos bem connosco, das duas uma: ou questionamos a nossa própria sanidade mental, ou chutamos para canto. logo não falar sobre isso é a solução lógica. procurar ajuda nem é opção.

reflecti muito sobre expor-me assim desta forma. afinal de contas qualquer pessoa pode ler isto e tirar as conclusões que entender mas, por outro lado, se ninguém quebrar o tabu nunca mais normalizamos estes assuntos. e tenho a certeza que há muito mais pessoas à minha volta a experienciar o mesmo ou lá perto. além do mais, isto não me define, é apenas uma parte de mim.
por isso cá vai.

em primeiro lugar, vamos a factos médicos: ansiedade é um estado psíquico de apreensão ou medo provocado pela antecipação de uma situação desagradável ou perigosa. a palavra "ansiedade" tem origem no latim anxietas, que significa “angústia", e o quadro de ansiedade vem acompanhado por sintomas de tensão, em que o foco de perigo antecipado pode ser interno ou externo. considerada, até certo ponto, uma reacção natural do ser humano, útil para se adaptar e reagir perante situações de medo ou expectativa​, a ansiedade torna-se patológica quando atinge um valor extremo, com carácter sistemático e generalizado, em que começa a interferir com o funcionamento saudável da vida do indivíduo.
resumindo: os últimos 12 anos da minha vida.
infelizmente, para uma grande parte das pessoas dizer-se que se sofre de ansiedade é o equivalente a dizer-se que se anda stressado, cansado, nervoso e ainda nos habilitamos a ouvir um “não sejas dramática”. mas para quem lida com ansiedade, é muito, muito mais do que isto.
é acordar muitos dias com medo do mundo sem se saber porquê.
é ter medo de tudo: de todas as doenças, da morte, do acaso, da sorte, até do valor dos pensamentos que se tem. pensa-se coisas como “se estou tão bem agora, tenho de pagar um preço por isso, alguma coisa má está prestes a acontecer”.
é analisar-se à exaustão todos os movimentos do corpo, desde um tremelique na pálpebra a uma refeição mal digerida e achar-se que são sintomas de uma doença fatal porque se só acontece aos “outros”, para esses outros, os outros somos precisamente nós. e se não dermos conta do assunto, em pouco tempo passamos de tensão alta a diabetes e daí para um aneurisma ou um cancro intestinal é um tirinho.
em menos de nada, todos os segundos do nosso dia são passados na avaliação milimétrica de todos os sinais que o nosso corpo nos dá e por esta altura, já estamos num estado de alerta tal que começamos efectivamente a sentir tonturas, dores de cabeça, palpitações.
é precisamente neste momento que surge ‘esse grande querido’; o ataque de pânico.
a equação é relativamente simples: se estamos a dizer à nossa cabeça que estamos em perigo, o corpo não tem outra solução se não reagir e querer fugir. e quando estamos com medo o que faz o coração? sim, é isso mesmo: bate mais forte, às vezes ao ponto de parecer querer explodir para fora do peito. tem-se dificuldade em respirar, falta-nos oxigénio no sangue e no cérebro e temos tonturas. noutras palavras: estamos a morrer, sem o estarmos na verdade.
alguém que não saiba o que isto é conseguirá porventura imaginar o que é sentir-se assim?
claro que questionamos a nossa sanidade mental: “para que estou eu neste filme se na verdade não há nada de errado comigo?” sim, porque em muitos casos, a esta altura já se foram fazer os testes todos: desde análises ao sangue, testes de resistência cardíaca a colonoscopias, o leque é extenso e variado. a resposta parece-nos, por isso, simples: “estou a ficar maluca”.
é aí que começa o estigma: precisamente dentro de cada um. não falamos sobre isso porque temos receio do que os outros vão pensar de nós, de sermos rotulados de ‘frágeis’, ‘dramáticos’, ‘histéricos’. e das poucas vezes que arriscamos falar sobre isto vamos ouvindo coisas do género: “se tivesses problemas a sério não tinhas tempo para essas parvoíces”. consequentemente, quanto mais guardamos para nós, mais tensão acumulamos. e há alturas em que a bola de neve está tão grande que a palavra controlo nos foge das mãos.
e eu acho que esta mentalidade-tabu tem de acabar.
temos de aprender a falar sobre isto, temos de tratar este assunto com a naturalidade que ele precisa. segundo a OMS, 33% da população mundial sofre de ansiedade o que significa que hão-de haver por aí muitas pessoas ‘no armário’, mesmo à frente do nosso nariz, a precisar de ajuda sem ter vergonha disso.
sofrer-se de ansiedade não é ser-se fraco. é ser-se mais sensível a certos estímulos. [que atenção: são diferentes para cada um]
infelizmente, o meu país não proporciona grande incentivo à procura de apoio pelas mais variadas razões. não só de certa forma as mentalidades estão ainda envelhecidas como no meu caso, enquanto lá vivia, não tinha encaixe financeiro no meu orçamento familiar mensal para uma despesa dessas. Psicoterapia? Hipnose? Acupunctura? Ioga? Meditação? só se passar a ir de patins para o trabalho, começar a pagar a renda em sorrisos e comer uma refeição dia-sim dia-não. falar com as nossas pessoas é essencial. aceitar ajuda para procurar e desbloquear as razões que nos levam a sentir assim também.
as pessoas que nos rodeiam e vivem connosco precisam de estar alerta e saber o que nos está a acontecer no dia em que as obrigamos a chamar uma ambulância porque uma quebra de tensão – que pode ser provocada simplesmente por algumas horas sem comer – nos faz gritar que estamos a morrer no meio da sala ou no cinema. é preciso entender uma coisa simples: naquele momento, estamos à beira de um precipício e precisamos que alguém nos segure.
precisamos de falar com os nossos amigos à vontade, de ser honestos com os nossos pais, irmãos, maridos e mulheres. dizer-lhes que uma mão forte no peito nos ajuda a abrandar as batidas do coração e a acalmar a respiração. explicar-lhes que um par de braços fortes à nossa volta a contar-nos histórias que nos distraiam pode ter o poder de nos fazer ‘regressar à vida’.
felizmente a minha vida mudou muito e, pela primeira vez tenho condições financeiras para ter ajuda profissional para lidar com isto. tenho ainda um longo caminho a percorrer mas estou na direcção certa. para além do mais, lá em casa fala-se abertamente sobre o assunto e, quando na semana passada tive o episódio mais violento de que me lembro nos últimos 10 anos, tive a sorte de ter não só ter um marido paciente e infinitamente carinhoso que me segurou nos seus braços com força durante mais de 1 hora até que adormecesse, como tenho uma amiga que me recebeu quase de ‘urgência’ no seu consultório de acupunctura no dia seguinte e me tem acompanhado de perto.
mas ainda me lembro de como era não ter nada disto.

decidi falar sobre isto porque acho que fazer terapia de vez em quando devia ser tão importante como ir ao dentista uma vez por ano. como diz a minha terapeuta, hoje em dia o diagnóstico de depressão serve para tudo e muitas vezes há problemas mal diagnosticados e, consequentemente, mal tratados, que facilmente poderiam resolvidos com ajuda adequada, inclusivamente medicação. falar com alguém que não nos conhece, não tem expectativas sobre nós, é libertador porque esta pessoa vê aquilo que somos de uma perspectiva mais ampla, mais clara, menos afunilada e isso pode ajudar-nos muito a entender melhor do que somos feitos.
decidi falar sobre isto porque quero deixar de ter vergonha de me sentir assim de vez em quando por ter mais dificuldade em lidar com a vida em certas alturas.
decidi falar sobre isto porque no ano passado e no espaço de alguns meses perdi 2 amigos à conta da mentalidade do não-se-fala, não-se-ouve, não-se-vê e era tão mais simples se a saúde emocional fosse considerada por todos uma coisa tão importante como a saúde física. inclusivamente, se a própria comunidade médica começasse a entender de uma vez por todas que alguns desequilíbrios físicos são sintomas de algumas fragilidades emocionais.
e finalmente, decidi falar sobre isto porque termos essas fragilidades não nos define.

o meu nome é Sara, sou portuguesa e vivo em Amesterdão. nasci em 1984, sou casada, danço balfolk, ocasionalmente dou aulas de dança e trabalho com lãs. estou a aprender lindy-hop e holandês. gosto de correr no ginásio e de jantares inesperados com amigos.