um ano de auto descoberta
2017/11/13

um ano de auto descoberta

[Aviso: este texto foi escrito primeiramente em inglês, pelo que a versão portuguesa é uma tradução do original]


Há meses que tento escrever sobre isto e agora mesmo, enquanto olho para o ecrã do meu computador, não sei como começar.

Pelo início, pronto.

Abreviando, exactamente há 2 anos atrás, eu e o meu marido decidimos deixar as nossas vidas normais para trás e mudar de país. Não que estivéssemos desempregados ou extremamente infelizes, mas precisamente porque ambos trabalhávamos demasiadas horas, tínhamos muito trabalho e, mesmo assim, o que ganhávamos não chegava para tudo ao fim do mês.
Esse facto, combinado com o sentimento profundo de que nunca conseguiríamos crescer verdadeiramente nas nossas vidas profissionais, levou-nos à decisão de tentar a sorte noutro lado qualquer. O resto é história e podem ler sobre isso nos textos anteriores do blog.

Passando à frente alguns meses, lá estamos nós, numa nova [e gelada!] cidade, a tentar ser bem sucedidos neste plano.
Num golpe incrível de muita sorte, um mês depois de aterrarmos em Amesterdão, o meu marido conseguiu uma oferta para um emprego de sonho e começou a trabalhar num ambiente competitivo e motivador, onde o seu esforço é valorizado, as suas capacidades realçadas e o seu crescimento profissional possível. E que-tão-bom era vê-lo acordar todas as manhãs empolgado para ir trabalhar, que diferença em relação aos últimos anos. Ainda hoje ele chega a casa ao fim do dia entusiasmado pelo dia no trabalho e a contar-me tudo sobre as suas conquistas, objectivos, desafios.
Já eu, por outro lado, não sentia propriamente o mesmo.
É que em Portugal era professora e, apesar de não ser lá grandemente respeitada pela maioria dos meus empregadores nem de sentir que tinha um futuro glorioso pela frente, saía de casa todos os dias feliz por ir trabalhar. Sentia-me útil e orgulhosa do meu trabalho. O meu intelecto era estimulado todos os dias e sentia que havia, de alguma forma, algum propósito para o que fazia.

Atenção: apesar de estar num país novo e de não dominar a sua língua, mesmo antes de cá aterrar arranjei um trabalho, com a ajuda de uma amiga. Pelo que fiz o que precisava de ser feito e fui trabalhar na primeira oportunidade que surgiu.
Só que, ao fim de um tempo, estar numa cave de 2x5 durante 8 horas por dia a tratar do stock de uma loja de malas não é propriamente mega gratificante ou fascinante e, depois de alguns sintomas de ansiedade terem reaparecido ao fim de muitos anos, juntamente com o meu marido decidi despedir-me e tentar a sorte sozinha, com o meu pequeno negócio de peças em lã feitas à mão, aqui na Julieta.
Era tempo de desbravar o meu próprio caminho.

Foi uma decisão muito discutida e pensada durante muitos dias, pelo que estava consciente dos contratempos e desafios que aí vinham. Afinal de contas, qualquer novo negócio parte de uma fase de investimento inicial antes de começar a dar frutos e eu pensava estar pronta para isso.
Então, abri uma minha loja na Etsy, comecei a promover as minhas peças, esforcei-me por aperfeiçoar diferentes técnicas, entrei em contacto com muitas pessoas, inscrevi-me num curso online de fotografia, experimentei projectos diferentes, investiguei, estudei, melhorei o meu site e, lentamente, comecei a vender as minhas criações. Nem queria acreditar que tinha encomendas de sítios tão distantes como os Estados Unidos e a Austrália!

Trabalhar a partir de casa tem, definitivamente, muitas vantagens: posso fazer o meu próprio horário, tirar quantos dias de férias quiser, viajar quando me apetecer, tomar decisões sem consultar um patrão zangado e ingrato e não tenho de lidar com maus colegas.
Parece perfeito, não é?
Só que trabalhar a partir de casa também significa que tens de ser muito regrado com os teus horários e que tens de estar sempre em cima de todas as tarefas e do tempo – porque ele voa, acreditem! –, significa que não tens grandes rendimentos ao início [porque tens de investir em materiais] e, acima de tudo, significa que estás sozinho o dia todo.
E aí têm: a minha decisão de ser empregada por conta própria acabou de dar um tiro no pé [e saiu pela culatra!], revelar-se mais difícil do que estava à espera e o ano passado [para mim o tempo conta-se em anos escolares] acabou por ser um dos mais difíceis de toda a minha vida.

Muitos factores tiveram o seu peso, claro:

1. Ainda estava a fazer o luto da minha vida anterior. Sentir saudades do meu país, dos meus amigos, da minha rede de apoio, da minha identidade cultural foi [ainda é!] um processo moroso. Gosto muito da Holanda e das possibilidades que este país nos está a dar, mas para um cidadão do sul da Europa, os meses de outono e de inverno podem revelar-se bastante difíceis de suportar e a cultura às vezes um pouco difícil de entender. Para além do mais, não é fácil aceitar o novo papel que passas a ter na vida dos teus amigos e família. Aniversários a que não vais. Graduações de karaté a que não assistes. Etapas importantes do crescimento dos miúdos que perdes. Dores dos amigos não amparadas. Pessoas não abraçadas.
Será que vale a pena estar aqui tão longe?

2. Melhor ou pior, sempre tive o meu próprio ordenado e nunca fui - na minha vida adulta - totalmente dependente de ninguém. Apesar do meu marido ser uma pessoa incrível e de me apoiar inteiramente, foi difícil sentir que não estava a contribuir activamente de forma financeira para a nossa economia doméstica. Por isso, apesar de saber que tratar de todas as outras tarefas cá de casa também é contribuir e de que tudo aquilo que estava a fazer para o meu negócio também é trabalhar, sentia-me mal de cada vez que tinha de comprar mais materiais. Ou quando fomos de férias juntos. Ou sempre que íamos jantar fora. Sempre que comprava uma peça de roupa nova. Cada despesa que fiz. Porque, apesar de ser o NOSSO dinheiro, não era o MEU dinheiro.

3. Durante o tempo de inverno os dias são mais pequenos. Aquilo de que não estava à espera era que na Holanda fossem TÃO pequenos.
O meu corpo está programado para ser produtivo durante o dia e descansar durante a noite. Só que quando a luz do dia começa a desaparecer por volta das 3 da tarde é difícil manter o ritmo e a produtividade.
Vejamos: eu sou uma pessoa do sol. Preciso de luz solar nas bochechas e de grandes quantidades de vitamina D a correr-me nas veias para me sentir com energia, com força, até para ter criatividade. Aqui, podem passar-se dias a fio sem um bocadinho de céu azul e isso pode fazer-me sentir oprimida de vez em quando. Eu chamo-lhe o “fenómeno dos tectos baixos”.
E sim, agora tomo suplementos de vitamina D e faço terapia solar em casa com uma lâmpada especial. [ah, a maravilha dos países nórdicos.]

4. Nunca tinha pensado em mim como uma pessoa criativa e, por isso mesmo, nunca tive de lidar com situações relacionadas com isso. Mesmo quando fazia teatro só tinha de interpretar a visão de outra pessoa daquela personagem e nunca a minha própria percepção da mesma. E sim, sempre escrevi, mas nunca de forma muito séria. Agora, pela primeira vez na vida, podia explorar aquilo que me inspirava, a minha visão do que me rodeava, até as minhas emoções, para construir depois as minhas próprias criações. Parece interessante! Só que isso fez-me sentir uma enorme responsabilidade em agradar os que me rodeavam e acompanhavam o meu trabalho. Quem sou eu, artisticamente falando? De que gosto verdadeiramente? Que técnicas possuo? Como fazer com que os outros se interessem pelo meu trabalho? Em suma, ser criativa a tempo inteiro fez-me sentir o menos criativa possível: de repente tornou-se uma obrigação, uma forma de fazer dinheiro e de me sustentar. [“Uau. Esta miúda é mesmo dramática.”]

5. É, de facto, muito libertador não ter de lidar com patrões ingratos e gerentes mal dispostos. Mas também é muito solitário ser-se emigrante numa cidade nova e trabalhar o dia todo sozinha em casa. Os dias transformam-se numa sucessão de eventos programados sem grandes novidades, semana após semana das mesmas. rotinas. todos. os. dias.
Acordar – Ir ao ginásio – Ir ao supermercado – Trabalhar – Comer – Dormir – Voltar ao início. Já vos falei na solidão?

5.1. Concluindo, preciso de interacções sociais regularmente. Preciso de conhecer pessoas novas. E sim, vou ao ginásio e tenho uma aula de dança semanal com outras pessoas. Mas isso não chega. Afinal de contas, todas as relações profundas que trago da minha vida anterior demoraram anos a ser construídas. E temos amigos a viver na mesma cidade mas encontrá-los uma ou duas vezes por mês não é suficiente.

6. Pela primeira vez, comecei a fazer terapia regularmente e ao que parece, lidar com algumas coisas ‘enterradas’ não foi propriamente uma coisa leve. Lidar com a nossa própria mente pode revelar-se um desafio – que vale a pena, vos garanto! – ainda que neste processo tenha aprofundado o conhecimento sobre muitas coisas acerca de mim, da minha infância e crescimento, da minha relação com os outros. Ah... a arte do desapego.

Pronto. Ali estava eu sozinha em casa, com todo o tempo do mundo para pensar. E reflectir. E questionar. E duvidar.
[e quão perigoso isto é para uma cabeça como a minha]

Rapidamente comecei a sentir a pressão de ter sucesso, de apresentar resultados, de ter de vender o suficiente, ser criativa quanto bastasse, conseguir fazer algum dinheiro com isto. E também comecei a sentir que, para compensar a minha não-contribuição financeira familiar, deveria tratar de ser responsável por tudo o resto cá de casa. Claro que, em pouco tempo, os ataques de pânico voltaram, as minhas inseguranças apoderaram-se de mim e a minha ansiedade atingiu o pico mais alto desde que começou há uns longos 13 anos atrás.
Qual era o propósito do meu trabalho, verdadeiramente? Tornar as paredes das casas dos outros mais bonitas?

Comecei a sentir-me fisicamente doente com muita frequência e fui ao médico várias vezes, aterrorizada com medo de ter uma doença grave [conhecem a hipocondria?].
E, com toda a franqueza – porque já é tempo de normalizar estes assuntos – comecei a entrar num estado depressivo: sem grande vontade de sair da cama nem grandes forças para enfrentar o que se estava a passar comigo. Como se a minha própria cabeça e os meus pensamentos estivessem a trabalhar contra mim e eu própria a primeira a sabotar-me: quanto menos produzia, mais frustrada me sentia. Quando mais frustrada me sentia, menos produzia. [Conseguem ver a pescadinha de rabo na boca?] Uma espécie de beco sem saída comigo lá no meio a gritar “Deixem-me sair!”.

Lá no fundo, eu já sabia que concentrar-me apenas numa coisa não era para mim.
Há uns anos encontrei a maravilhosa Emilie Wapnick que me mostrou que há mais pessoas como eu, os “multipontentes”: pessoas que precisam de se dedicar a várias coisas ao mesmo tempo e que têm diferentes interesses. Desde que me lembro, sempre fui assim: se estiver focada só numa coisa, rapidamente perco o interesse por ela. Para me sentir criativa e produtiva, preciso de não me sentir presa. E é por isso que danço, que trabalho com lã e, mais recentemente, que trabalho como tradutora numa empolgante startup holandesa – já explico tudo mais à frente.
Desde que comecei a trabalhar já passei por livrarias, já fui professora, já trabalhei no aeroporto, já trabalhei em quase todas as vertentes do mundo do teatro e, mesmo assim, se me perguntarem neste momento “O que queres ser quando fores grande?” continuo sem saber responder. Aquilo que me preenche é o conjunto de todas as coisas de que gosto de fazer e não apenas uma só coisa.

Mas eventualmente o verão chegou [pelo menos a outros países da Europa] e com a ajuda do meu querido e paciente marido concluí que o que realmente me faria bem era uma espécie de cura-de-sol. Apesar de termos voos comprados para o fim desse mesmo mês lá ir, ele insistiu em comprar-me um voo S.O.S. para uma semana de praia, calor e descanso em Portugal. Não contei a ninguém desta viagem [só aos meus pais e duas amigas] e passei uma semana inteira a ler na areia e a mergulhar no mar.
De repente, o meu corpo já não se sentia tão doente como até ali e isso ajudou-me a perceber que o que tinha sentido nos últimos meses era unicamente produto da minha própria mente.
Este era, finalmente, o botão “pausa” que tanto precisava.
Conseguia descansar outra vez, respirar outra vez, e o meu coração já não queria saltar a cada minuto nem o meu peito parecia estar debaixo de uma rocha pesada. Devagarinho, comecei a regressar à vida. Já não tinha medo de morrer todos os dias. Nem me sentia não-merecedora desta vida bonita que estamos a construir neste lugar novo.

Por isso, depois de férias ao sol, com ajuda da prática diária de meditação e com as ideias bem mais arrumadas, finalmente decidi que precisava de voltar a trabalhar fora de casa. Algo que me estimulasse o intelecto, me fizesse sentir útil e ao mesmo tempo me permitisse conhecer novas pessoas.
Comecei a fazer candidaturas e ao fim de algumas semanas fui contratada como tradutora de português numa startup jovem e energética e, precisamente um ano depois de voltar para casa depois de me despedir do meu primeiro emprego aqui na Holanda, comecei a trabalhar em part-time [que aqui significa dois ou três dias inteiros ao invés de metade do dia, todos os dias], o que me permite continuar a investir nos meus sonhos feitos de lã e noutras coisas importantes para mim – como passar um dia a escrever e a traduzir este texto.
Sinto-me agora muito mais útil e com sentido de propósito: as minhas qualidades profissionais são valorizadas no meu novo trabalho, a minha cabeça funciona, o meu intelecto está vivo de novo e a minha criatividade está a regressar aos poucos.
Não sinto pressão para ter sucesso porque já me sinto bem sucedida.

Foi um ano difícil, disso não há dúvidas.
Mas sobrevivi e cheguei ao outro lado renovada. Aprendi muito sobre mim mesma e vejo uma pessoa diferente quando me olho ao espelho: nem melhor, nem pior. Mais completa. Mais serena. Mais presente neste processo infinito de crescimento e de autodescoberta. Aceito melhor a minha nova vida, as suas limitações e as suas possibilidades. E sinto-me muito mais consciente das minhas necessidades, daquilo que gosto e daquilo que não me faz falta.
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Não seria justo terminar esta partilha sem algumas palavras sobre o meu sempre maravilhoso, sempre surpreendente marido. A pessoa mais cuidadosa, tolerante e generosa e que, de alguma maneira, pareço merecer. Toda a força para lidar com isto, tirei-a do seu abraço diário, das suas palavras de sabedoria e compaixão, da sua paciente espera, da sua compreensão dos meus sentimentos e das minhas necessidades, do seu encorajamento e do seu apoio incondicional.
Se ao menos ele soubesse quão profunda é a minha admiração por ele. Se ao menos ele soubesse o quanto aprendo com ele desde o primeiro dia em que o vi.
Esta estrada fazemo-la, verdadeiramente, lado a lado.

Para concluir, gostava de relembrar que o que escrevo é apenas a partilha das minhas experiências ao longo do ano passado. Admiro profundamente todos os que neste momento lutam na vida do auto-empreendedorismo diariamente e que decidem deixar os seus trabalhos para trabalhar por conta própria. Esta é a minha história e uma tentativa de viver a minha própria verdade, encorajando-vos com isso a viver a vossa.

A saúde mental não devia ser um tabu.