trabalho: expectativas vs. realidade.

trabalho: expectativas vs. realidade.

na sequência dos mais difíceis Janeiro e Fevereiro de que tenho memória, vou falar sobre um assunto sobre o qual tenho reflectido bastante, vou falar sobre realização profissional. 

no meu país, que luta pela sobrevivência e vive em permanente estado de fragilidade económica, a noção de sucesso profissional está ainda directamente associada ao número de zeros na conta bancária, ou seja, ao retorno financeiro que daí advém. por essa razão, mesmo que estejas a fazer aquilo que gostas, se não conseguiste estabilidade financeira, não chegaste a lado nenhum. 
escolher, deliberadamente, trabalhar em regime de part-time, ficar em casa a acompanhar os filhos ou investir naquilo que te faz mesmo feliz é, infelizmente, ainda pouco compreendido, mesmo que tenhas reunidas as condições para fazê-lo.
e se falarmos do meio artístico, a coisa agrava-se. trabalho a sério é, em primeiro lugar, aquele que te paga as contas e, em segundo, aquele que é aceite pela generalidade das pessoas. escultor? perfomer? blogger?
é, por isso, praticamente impensável despedires-te do trabalho mais ou menos seguro que tens [mesmo que te sintas miserável] para te dedicares ao teatro, à pintura, à literatura, à música ou ao artesanato sem estares sujeito ao escrutínio alheio, sem seres visto como o 'desocupado'.

- e neste momento é preciso fazer uma pausa e esclarecer que estou a falar da escolha deliberada, estou a falar das pessoas que, seja lá por que razão for, puderam escolher mudar o rumo das suas vidas profissionais. -

eu diria que quem faz uma escolha destas - repito, escolha - pesou os prós e os contras e está consciente das consequências a que está sujeito mas esta mentalidade reprovadora está de tal forma enraizada nos nossos comportamentos que a primeira vez que se revela é dentro de cada um de nós. no meu caso em particular, que é na verdade o único de que posso falar, apesar das nossas vidas cá em casa terem dado uma volta de muitos graus para melhor porque mudámos de país, a minha cabeça não acompanhou o passeio à mesma velocidade.
depois de muitos anos de insatisfação profissional decidi, com o apoio incondicional e fundamental do meu marido, dedicar-me a tempo inteiro ao meu projecto pessoal que é, como sabem, a Julieta.
ora, qualquer pessoa que já começou um negócio, tenha ele que dimensão tiver, sabe que ele demora a ser construído e que há muitas dimensões envolvidas neste processo mas, não estar a contribuir financeiramente de forma activa e regular para o orçamento familiar pela primeira vez na minha vida profissional e adulta, teve um peso psicológico em mim maior do que estava à espera.
nos últimos dois meses, e com a ajuda da falta de luz, do mau tempo e de uma rotura de ligamentos, deixei-me cair num sentimento de frustração e insatisfação profundas, com consequências directas na minha saúde física e emocional, nos dias cá em casa e na minha produtividade. não concluí uma única peça, deixei de ir ao ginásio regularmente, passei dias inteiros sozinha em casa sem fazer nada de visível e senti-me, basicamente, inútil e perdida. a ansiedade regressou com mais força do que nos últimos 10 anos. e deixei-me invadir por uma sensação de culpa como nunca tinha sentido. culpa por não ter "um emprego a sério". culpa por não estar a pagar as contas. culpa por ver o meu marido chegar a casa cansado do trabalho e ainda ter de fazer o jantar porque eu estava de muletas. 
[e quando estamos assim, quanto mais fundo mergulhamos, mais difícil é voltar à tona.]
só que apercebo-me agora que, em grande parte, senti tudo isto porque o meu comportamento está totalmente condicionado pela mentalidade de que se não estou a ter uma recompensa financeira ao final de cada mês, não tenho um trabalho a sério.
planear e fazer as compras, limpar a casa, tratar da roupa, cozinhar refeições, tratar de todas as outras tarefas domésticas são um contributo tão importante como o dinheiro e embuída desta culpa católica decidi que, se não estava a contribuir financeiramente, ao menos esta parte das responsabilidades domésticas tinha de ser minha na totalidade. não foi preciso muito para me sentir miserável.

para além do mais, existe hoje em dia - em parte potenciado pelas redes sociais - uma espécie de 'nova ordem' para se ser feliz e procurar a satisfação permanente nos detalhes, nos momentos bons da vida. carpe diem, hygge, slow living, slow parenting, inspiration everywhere, hashtagchantagememocionalsemdarmosporisso.
é verdade, admito que usar redes sociais como o Instagram para divulgar o meu projecto me têm ajudado a reflectir e estar mais atenta aos detalhes bonitos do meu dia-a-dia mas o reverso da medalha pode ser esmagador porque a constante procura da foto perfeita que ilustre um certo estilo de vida e um sentimento em particular podem resultar numa prisão emocional sem darmos por isso. de repente todos os dias têm de ser inspiradores, luminosos, cheios de ideias e o chá que bebeste a meio da tarde tem qualquer coisa de magia subliminar. e, pelo-amor-da-santa, isso às vezes é uma grandecíssima treta.
todos temos dias de cabelo oleoso, depilação por fazer e calças de fato-de-treino, refeições de McDonalds e maratonas de séries na televisão. dias cinzentos sem inspiração, ideias novas, esperança ou produtividade.
é impossível viver em estado de contentamento permanente e os dias menos bons são absolutamente necessários para o equilíbrio natural da vida. sem o contraste, como apreciamos, verdadeiramente, aquilo que nos faz sentir bem? a tristeza ajuda-nos a reconhecer a alegria. os dias escuros a aproveitar o sol. os 'nãos', a apreciar os 'sins'.
parece-me que mais importante que tudo é saber reconhecer este balanço para baixo e para cima e aprender a surfá-lo com tranquilidade. mas isso é outra história.

passemos então ao que me motivou a escrever sobre isto: a definição do que é e do que não é considerado trabalho.

quando eu ou algum dos meus conterrâneos emigrantes vamos de férias ao nosso país de origem e nos perguntam o que estamos a fazer, se respondermos “despedi-me para...” complementado com um “estudar representação”, “ser escritor freelancer”, “ser artesã”, “ser performer”, “me dedicar à costura”, já sabemos que vêm de lá pelo menos 1 par de olhos esbugalhados, uns breves segundos de silêncio e talvez ainda um “então mas e um trabalho a sério, não vais arranjar?” no fim.
porque quando crescemos condicionados por esta mentalidade, é muito difícil entender que, por exemplo, aquilo que eu estou fazer para divulgar o meu projecto É, efectivamente, trabalho.
trabalhar fotografias, aprender a manipulá-las, investigar, fazer pesquisa sobre novas tendências, ler artigos sobre fotografia, sobre tipos lã, sobre trabalhos manuais e novas formas de fazer crescer o negócio, ler entrevistas a criadores e a pessoas que fizeram o mesmo percurso, escrever artigos [como este, por exemplo, que demorou 4 dias até estar terminado – e mesmo depois de publicado está sujeito a alterações] e traduzi-lo para inglês, desenhar protótipos e projectar novas peças, produzi-las, experimentar ideias, deitar tudo fora e só à 10ª tentativa ficar satisfeita com o resultado, abrir uma loja online, actualizá-la regularmente, publicitar as minhas peças, fazer encomendas, embalá-las e enviá-las por correio É trabalho.
construir um projecto, seja lá ele qual for, dá trabalho e é um trabalho a sério. é por isso que não sei lidar com perguntas como “e o que tens feito?” ou “e se arranjasses um part-time?”. porque eu tenho um trabalho: o meu, aquele que estou a criar e a construir e tudo aquilo que faço, desde travar conhecimentos com pessoas na mesma área a actualizar o Instagram diariamente fazem parte dele.
é certo que ainda não consigo tirar dinheiro suficiente deste projecto que me sustente ou, ao menos, pague as despesas que tenho com ele mas ao que estou a fazer chama-se investir. tempo, dinheiro, aprendizagem.
e espero um dia conseguir ter algum retorno financeiro deste investimento. isso demora tempo e até lá, não, não quero ir trabalhar para a cave de uma loja nem fazer traduções. quero focar-me inteiramente nisto e concentrar toda a minha energia naquilo que me dá prazer. se daqui a uns meses não resultar, seja porque financeiramente deixou de ser possível, seja porque deixou de me dar prazer, hei de partir para o próximo desafio e pronto.
claro que ajuda [e muito] estar a viver num país que me possibilita esta escolha e é precisamente por essa razão que quando aqui te perguntam o que fazes e respondes que és mãe a tempo inteiro, especialmente nas cidades [acredito que nos meios menos urbanos as mentalidades continuem a precisar de abertura], ninguém olha para ti com ar reprovador ou pensa que és uma coitadinha, sem estudos, uma 'pobretanas' cujos dias são passados a fazer sopa e mudar fraldas. pelo contrário, acompanhar os primeiros anos de um filho é uma coisa incentivada. ser-se artesão é tão valorizado como ser-se designer num atelier, trabalhar a part-time tão normal como trabalhar em full-time.


viver numa sociedade assim é libertador.
só que primeiro, é essencial que te libertes das amarras culturais que trazes contigo.
e nisso, a chegada da primavera ajuda muito. os dias estão maiores, o sol diz-te olá mais vezes, e os suplementos de Vitamina D começam a surtir efeito.
observas o que te rodeia com maior clareza e a cabeça começa a organizar-se.

agora sim, há inspiração em todo o lado.


P.S. e por que é que depois de 4 dias a trabalhar neste artigo continuo com a sensação de que não fiz "nada"? o ADN é tramado.