tirar a marcha-atrás
2015/09/05

tirar a marcha-atrás

a conta da luz que este mês aumentou. a do gás que está por pagar há 1 semana. o irs. o iva. a segurança social e uma carta das finanças. a coima. a multa. o imposto. o imposto sobre o imposto. o seguro. o dentista que não podes adiar mais. a renda que ainda não sabes como vais pagar e já estamos a dia 5. o frigorífico quase vazio e o estômago a dar horas. o carro que não pega. a gasolina a subir e o contador a descer. 

"se puder, passe por cá amanhã para falarmos" 
vem aí o ano da metade. metade do trabalho, metade do ordenado. metade da vontade de sair de casa. 
posso gastar metade da luz? pagar metade da segurança social? fazer meia sopa, comprar meio passe? alugar metade da casa, usar metade do carro? 
posso respirar pela metade, sobreviver pela metade?
um suspiro fundo; lá dentro o sol quente, a praia a 20 minutos de casa, uma cidade de luz. os amigos todos, os amigos-família e a família toda. a avó. pastéis de nata, pataniscas de bacalhau e arroz de tomate. o 28 até à graça e o tejo de prata. a casa mais bonita de lisboa e o coreto no jardim ao domingo. sandálias. uma esplanada e um pires de caracóis. o chiado e a estação de metro do parque. e a dança, sempre a dança.
mais um suspiro fundo. desta vez juntam-se-lhe ondas de mar salgado bochechas abaixo, descontroladamente. um abraço forte, de quem agarra para não largar.

não quero metade dos planos, metade da vida, metade do futuro.
quero planos altos, a vida por inteiro e o futuro de um trago. 
soltar-me da corda ao pescoço e tirar a marcha-atrás.