quando fores mãe é que vais ver.
2015/05/16

quando fores mãe é que vais ver.

aquele momento diário em que te dizem "quando tiveres os teus filhos, vais ver" ou as várias versões desta frase, num misto de certeza e paternalismo que te reviram as entranhas.
"e tu, quando é que arranjas um destes?" como se de um telemóvel novo se estivesse a falar. "e agora, que se casaram, quando é que vem um filho?". ou melhor ainda "quando fôr com o teu, quero ver". 

e agora? começo a responder a isto por alíneas estruturadas ou sorrio gentilmente, como de costume, e deixo passar?

ponto um: sim, eu sei que sou mulher e que tenho 31 anos. 
ponto dois: isso do relógio biológico é como ter gases? como é que se sabe que se tem?
ponto três: quem é que te disse a ti que eu quero ter filhos?
ponto quatro: onde está escrita a nota bigráfica que diz que TODAS as mulheres da minha idade sonham com noites sem dormir, consultas no médico, fraldas e camisolas bolsadas só pelo prazer infinito de estar ligadas ETERNAMENTE a um ser humano [ou vários]?
ponto cinco: desde quando é que uma mulher é menos mulher por não ter dado à luz?
ponto seis [para mim um dos mais importantes]: alguém te avisou da possibilidade de eu não poder ter filhos biologicamente?
honestamente, a linha entre a conversa casual e o atingir um hipotético ponto sensível é muito ténue. e, exceptuando as pessoas que nos são íntimas, há determinado tipo de conhecimentos que não partilhamos com todos. 


por isso, este texto é um manifesto. um manifesto contra a mentalidade instaurada de que todas as mulheres desejam ser mães [sobretudo depois de uma certa idade], de que todos os casais vão efectivamente encher a casa de crianças [sobretudo se forem casados] e de que falar sobre isso como dado garantido fosse absolutamente natural.
pois não é. 

não pensem com isto que não gosto de crianças. "logo tu, que trabalhas com elas todos os dias... não gostavas de ter uma?". se calhar, é precisamente por isso que, for the time being, não tenho o mínimo desejo em ser mãe. trabalho com crianças o dia todo: vê-las descobrir o mundo, adquirir experiências, aprender um sem fim de coisas na sua ingenuidade, regressar à infância todos os dias nas mais diversas macacadas, é um prazer sem preço, ao qual me dedico com sentido de responsabilidade e alegria infinita. 
mas ao fim do dia - vá, matem-me já aqui - gosto do silêncio que a minha casa me traz. e da liberdade que a minha vida me permite. gosto de não fazer planos e mudar tudo à última da hora. beber copos até tarde e namorar com o meu marido. gosto da nossa vida a dois. 
não é inteiramente verdade que ainda não sou mãe a sério e que não sei o que é a vida de casal com uma criança: o meu marido tem uma filha e desde há 3 anos que com ela partilhamos o nosso mundo. sim, não sou mãe biológica. não vi a barriga crescer nem conheci a B. quando era bebé [embora saiba que era linda, de caracóis dourados à volta da cabeça]. mas aturo birras, levo ao parque, faço sopa e compro sapatos quando os antigos deixam de servir. leio histórias, dou mimos, zango-me. ensino e aprendo. abdico de planos para ficar em casa com ela. vou aos espectáculos da dança e às graduações de karaté. não sou mãe biológica. sou mãe do coração. 
nunca será a mesma coisa, tenho noção disso, mas considero ter uma vida bastante equilibrada.
depois disto tudo, volto a ter o meu tempo de sossego, de namoro a dois, de dias sem horários. 

serei assim tão egoísta por pensar assim e admiti-lo?
em pleno século XXI teremos nós, mulheres, de nos sentir culpadas perante a sociedade, a família, até as amigas pelo simples facto de não sentirmos o apelo da maternidade? e terão a sociedade, a nossa família e as nossas amigas que falar sobre isso como se fosse um dado adquirido?
"quando tiveres os teus, vais ver como é". e se nunca os tiver, não vou ver nada? não vou saber nada?
eu, que trabalho com crianças pequenas o dia todo, que participo activamente na educação da minha enteada, não sei nada sobre isto, não tenho direito a opinião?

tenho 31 anos. sou mulher. nutro pela minha sobrinha, a minha enteada e demais filhos de amigos um carinho sem fim. tomo conta deles todos, mudo fraldas sem problemas ou enjoos, brinco, enterneço-me com bebés no parque, pego ao colo, dou a sopa, faço barretes e mantas para a alcofa em crochet. sou casada com um Homem maravilhoso, que para além de tudo, é um pai exemplar. 
mas [ainda] não sinto vontade de ser mãe. e, honestamente, não sei prever se isso algum dia vai mudar. 

agora podem, por favor, parar de falar comigo como se fosse obrigatório passar-se por isso?