último dia de aulas
2015/06/12

último dia de aulas

mais um ano lectivo que termina hoje e eu tão orgulhosa das conquistas de todos os meus alunos, tão grata por poder assistir ao seu crescimento.
mais um ano lectivo que termina hoje e eu, infelizmente, a ter de encher-vos com o discurso-piegas-anual do costume.

chegar a este dia é sempre agridoce porque, se por um lado tenho a sensação de dever cumprido, na certeza de ter feito o melhor que pude ao longo do ano por todos [e este ano bati o recorde, eram 342, em 3 escolas!], sinto também o travo amargo do desemprego [que ainda não sei se é temporário ou não] e da injustiça que me pesa os ombros o ano inteiro, me cansa, me desmotiva e sobretudo, me entristece.
porque de mim esperam o mesmo empenho, dedicação, cuidado e trabalho que de qualquer outro professor e às vezes ainda exigem mais: esperam também que ofereça o meu trabalho. que receba encarregados de educação, faça avaliações [preciso de vos relembrar o número de alunos deste ano?], frequente reuniões, prepare testes e os corrija sempre, sempre em regime de voluntariado.

o meu trabalho é a minha forma de sustento. 
é com ele que pago a renda, as contas, que sobrevivo.
nenhum de nós pode ir ao supermercado encher o carro e pagar só metade da conta. pedir-me que trabalhe continuamente de borla é como ir ao cabeleireiro lavar, cortar e pintar o cabelo e no fim pagar só o corte. 
recebi, nos últimos dias, inúmeras provas de apreço e validação do meu trabalho tanto por parte dos meus alunos, como dos meus colegas professores. e podia dizer-vos que, até agora, isso me tem bastado.

sou uma mulher feliz. faço por encher os dias do essencial, amigos, amor, sol nas bochechas, lisboa. 
mas vivo com a permanente sensação de corda-na-garganta. tenho todos os encargos legais a meu cargo e nenhuma, absolutamente nenhuma protecção social. não posso ficar doente. perdoem-me se quiser ser mãe! e aqui-del-rei se reclamar os meus direitos. "cala-te senão vais para a rua."
hoje sinto a vida hipotecada.

mas já sei que amanhã acordo ao lado do homem mais bonito e generoso do mundo e que volto a acreditar que é possível. saímos de mão dada à rua e tenho a certeza de que um dia não vou precisar de escrever isto. 
até amanhã.