a visita

a visita

chega geralmente pela mesma hora, pouco antes do almoço, e senta-se ao meu lado, na grande mesa de madeira que partilhamos com mais pessoas que, como eu, trazem os computadores para trabalhar. 
traz uma mala de cabedal antiga, daquelas que se encaixam na bicicleta e uma gabardina para chuva, capuz apertado debaixo do queixo.
às vezes traz um pacote de cajus que vai comendo enquanto lê o jornal. pede um café com leite e come a espuma à colher, devagarinho.
em jeito de tique vai penteando o cabelo branco à medida que as mãos a tremer vão folheando as páginas, óculos de ler a cair do nariz.
no final, pede-me em holandês que lhe guarde a mala e o casaco enquanto vai à casa-de-banho. e eu, não lhe sabendo responder como queria, sorrio e respondo que 'sim'. quando regressa agradece de sorriso gentil e sai. casaco abotoado, luvas, a chuva lá fora e a mala presa na bicicleta.

será o cabelo branco, a idade, as mãos, a estrutura física? serão a gentileza e a doçura? não sei. mas faz-me lembrar o meu avô quando, sentado também à mesa, lia o jornal de fio a pavio, todos os dias sem falhar.

todos os dias fico de coração embargado mal o vejo entrar pela porta do café mas gosto deste bocado do meu dia.

como se fosse uma visita que o meu avô me faz.
as saudades que lhe tenho.