a escola em que acredito
2015/05/19

a escola em que acredito

vivi, nos últimos anos, alheada da realidade escolar do nosso país, qual rosa dentro da redoma, longe de entender concretamente o quotidiano daquilo a que chamamos de ensino normal ou de ensino tradicional. 
apesar das condições precárias em que tenho vindo a exercer a minha profissão, considero-me bastante sortuda, já que o tenho feito em escolas que trabalham com modelos pedagógicos alternativos.
o que isto provocou em mim, concluo agora, foi um total esquecimento sobre o meu próprio percurso escolar e mais ainda, um profundo desconhecimento sobre aquilo que é o mais comum, aquilo que é a norma na maioria das escolas e que descobri durante este ano lectivo, numa das novas escolas onde estou a trabalhar. [sim, são 3 ao todo.]

acredito numa escola capaz de entender cada criança individualmente, uma escola capaz de lhe dar os instrumentos para superar adversidades. uma escola que fomente e enalteça a curiosidade e a criatividade naturalmente inerentes à infância, ao invés de as sufocar e de as condenar, inclusivamente. 
uma escola que avalie cada criança pelo seu percurso individual, que a acompanhe, que a guie, que a faça superar-se, que lhe dê confiança, que confie nela. 
uma escola que se deixe de avaliações quantitativas e que se foque naquilo que é realmente essencial no crescimento de cada indivíduo: desde quando é que um teste passou a ser o único método de avaliação? 
em plena semana de exames [no 1º e 2º ciclo] pergunto-me: que escola é esta onde a educação é um negócio, cheio de metas curriculares, de rankings, de explicações, de manuais, numa obsessão absurda com as notas dos alunos? que sistema é este que promove os bons e vai deixando para trás os alunos com dificuldades, numa constante tentativa de os rotular com alguma perturbação? "se não percebe, tem algum problema, de certeza." 

vivemos numa era com acesso ilimitado à informação. uma rápida pesquisa na internet é quanto basta para percebermos que a avaliação, tal como é feita na maioria das escolas, é única e exclusivamente contraproducente, porque promove a exclusão social e não cumpre, efectivamente, a função de fomentar a aprendizagem e o conhecimento. 

e o professor? não basta que seja um bom aplicador do programa curricular. é essencial que promova a democracia na sala de aula, que fomente o papel activo do aluno no processo da sua própria aprendizagem e que com ele construa o seu percurso, baseando-se num trabalho diferenciado e adaptado a cada criança, ao invés do antiquado ensino em simultâneo. [que vem apenas produzindo horas de sono e desinteresse crescente.]
é preciso que a aquisição das aprendizagens se concentre na experiência e na acção. que o processo educativo promova a interajuda, a cooperação e a autonomia. que valorize todas as expressões artísticas. que respeite a especificidade de cada indivíduo.

chega de trabalhos de casa. de explicações. de trabalho extra. de horas na sala de apoio. de mais horas de escola. de testes. de exames caducos. de metas inantingíveis. de notas. de percentagens. 
basta de falácias. basta desta escola que rotula e determina o futuro de cada criança com dificuldades.
já ouviram falar que o Steve Jobs tinha síndrome de asperger? que o criador dos Simpsons era 'hiperactivo' e tinha péssimas notas a matemática? que o Einstein teve problemas de aprendizagem? 

sabiam que nos dias de hoje, em média, as crianças têm um horário de trabalho tão pesado quanto um adulto? quando é que vamos entender que brincar, é um assunto muito sério? 

a escola, tal como está, é um verdadeiro atentado à infância e a todo e qualquer vestígio de individualidade. a escola dita "tradicional" não é senão uma fábrica, onde aquilo que importa são os resultados e o que foge à norma é posto de parte. 
cheira a estragado. a mofo. ao 'tempo da outra senhora'.